por Samuel Barros
O encontro foi no Bar e Restaurante do Edinho, um lugar escondido no fundo do Ceasa-Rio Vermelho, em Salvador. Apesar da ausência de enfeites, o Restaurante é conhecido pelo bom tempero baiano e pelo péssimo café que sai por conta da casa, depois do almoço. Ruy Alberto d´Assis Espinheira Filho, poeta, romancista, jornalista e escritor, está na cabeceira da mesa. Do seu lado direito, o editor-chefe do Jornal A Tarde, Florisvaldo Mattos – para os presentes basta chamá-lo de Flori. Em seguida, a namorada de Ruy, Maria da Paixão. Do lado esquerdo, o seu amigo Leonan Oliveira, sucedido por Mário Vieira, apresentado como amigo-irmão:
- Meu filho se chama Mário por causa dele – explica em determinada altura da conversa. Mário Espinheira, compositor, observa da outra extremidade. Ao todo, dez pessoas compõem a mesa, chargistas, escritores, jornalistas e músicos.
Como quase sempre, Ruy está à vontade entre os amigos e conversa sobre os mais variados assuntos, intercalados por lembranças de momentos curiosos. Ele explica que o encontro é semanal e já acontece há quase três anos. Toda quinta-feira, no Restaurante do Edinho. E começou com a idéia de James Amado e Guido Guerra, este já falecido, de reunir artistas amigos.
Ruy veste uma camisa branca, um pouco maior do que seria necessário; calça jeans azul e sandálias fechadas, mas com aberturas suficientes para dissipar o calor e manter o conforto. Os óculos de grau ficam dependurados no pescoço por um cordão sintético preto. A chave do carro balança do lado direito da cintura, presa por um chaveiro de alumínio. No braço esquerdo, um relógio analógico chama atenção por ainda guardar o brilho do pouco uso. Uma caneta dourada descansa discreta na gola da camisa e pode ser requisitada a qualquer momento.
O poeta traz um rosto sereno, semi-escondido por uma barba branca. Em algumas expressões demonstra sinais de cansaço. Os traços de uma juventude recente, porém, ainda estão presentes. No entanto, a idade pode ser notada pelas mãos. Estas têm uma pele desgastada e veias aumentadas. Ao contrário do rosto, em que a barba esconde as rugas, as mãos revelam a ação do tempo.
Experimentado nos versos, Ruy constrói as orações com paciência. Procura as palavras que consigam carregar o sentido exato do que quer dizer. Mantendo esse ritmo calmo, foi tomado por uma onda de nostalgia. Lembra dos tempos em que morava em Poções, cidade pequena do interior da Bahia:
- Morava na Rua da Itália. Meus pais eram italianos e tinham parentesco com as famílias Sarno e Orrico que eram tradicionais na cidade.
Apesar de ter nascido em Salvador, foi morar em Poções quando tinha apenas três anos de idade. Nas ruas de Poções foram construídas as lembranças da sua infância, do futebol na rua, das vidraças quebradas, dos seus irmãos, das amizades. Este tempo deixou um legado que freqüentemente serve de combustível para a sua poesia.
- Toda a visualização da minha infância se dá em Poções: uma cidade sonho. Toda atmosfera é Poções.
Aos 14 anos teve que se mudar para cursar o ginásio. As opções mais perto eram Vitória da Conquista ou Jequié. Escolheu Jequié.
- Jequié era melhor para viver – argumenta.
Passou no exame de seleção do Ginásio de Jequié, hoje conhecido como Centro Educacional Ministro Spinola – CEMS. O seu pai era inspetor federal de ensino e conseguiu uma vaga para ele ficar como interno. Ruy, sem qualquer esforço, se lembra das datas:
- Eu fui prá Jequié em 56 e minha família no segundo semestre de 57.
Jequié, uma cidade maior que Poções, calma e com uma vida intelectual ativa, foi decisiva para a formação do poeta. Ingressou no Movimento Estudantil e foi aos poucos formando uma roda de estudantes intelectuais que discutiam política, de certo modo questionavam o mundo.
- Foi em Jequié que passei minha adolescência e até hoje acho que é uma cidade boa para morar.
Na Praça Ruy Barbosa, os amigos conversavam, às vezes por toda a noite, sobre os mais variados assuntos. Mas era na Rua do Maracujá que a vida era mais intensa. Ali podiam freqüentar as casas de mulheres “experimentadas”, beber e conversar com intelectuais mais velhos, assíduos freqüentadores do lugar. Ruy lembra, em tom de graça, de uma ocasião em que foi buscar na Rua do Maracujá um grande amigo, o Deó, que ficara sem rumo depois da farra.
Em uma pausa para respirar, Ruy participa de uma conversa solta na mesa sobre vinhos de boa qualidade por preços modestos. Ele procura se certificar que sabe onde é a adega e recebe a resposta acompanhada da informação de que há bons vinhos argentinos por cerca de R$ 25.
Voltamos aos tempos idos em Jequié. Ruy agora tenta lembrar os nomes de alguns amigos mais próximos: Deó Astrê, José Mariano, Dálvaro Rebouças Filho, Ernando Carlos, Lúcia Ribeiro, Pedro Egídio, conhecido da turma como Pedro Bocão. Leonan Oliveira, ao seu lado, se integrou ao grupo bem mais tarde. Leonan acompanha trechos alternados da conversa e completa:
- Se você chegar em Jequié e perguntar quem é Pedro Egídio, ninguém vai saber quem é. Mas pergunte por Pedro Bocão que todo mundo vai saber lhe responder – fala entre risos.
Neste tempo, Ruy já escrevia. Publicou alguns artigos no Jornal da Associação Jequieense de Estudantes Secundários, a qual ajudou a fundar e na qual militou por algum tempo. Escrevia também muitos poemas que não chegaram a ser publicados:
- Escrevia, mas não publicava, era para consumo próprio – explica.
Os tempos de militância foram importantes para que perdesse a timidez, começava então a problematizar o mundo:
- A política estava me ajudando. Foi aí saí do casulo. Foi algo importante na minha vida. Nós líamos muito, meus irmãos – Tuna e Gey – Paulo Martins, Roberto…
Depois de uma lista de alguns nomes, ele se lembra de outro artista de expressão nacional que foi seu contemporâneo em Jequié.
- Waly Salomão também se integrava vez por outra, mas não era bem do grupo.
Mais um baú de boas recordações se abre:
- Jequié era uma cidade dos sonhos, sempre teve mulheres bonitas. O carnaval era muito bom, as festas do JTC (Jequié Tênis Clube)… Vivíamos uma grande vida boêmia.
Tem ainda Paulo Miccheli e outro amigo que estava presente e pediu para não ser identificado, mas para nós basta saber que era conhecido como Jegue. O apelido era tão peculiar que sua namorada era conhecida como Maria Luiza Jegue. Ele se defende:
- Só minha, não!
E aponta os companheiros como sócios da empreitada. Leonan aproveita para fazer graça e diz que a namorada era de Ruy.
- Você passava na frente dos seus amigos, Ruy? – indago.
- Ninguém passava na frente de ninguém. Éramos democratas. – brinca, ensaiando um discurso.
Novamente, para continuar os estudos, teve que se mudar. Saiu de Jequié, em 1961, com destino a capital, sua cidade natal. Foi para o Colégio Central da Bahia, onde estavam as melhores pessoas ligadas à cultura e à arte.
- Tinha muita gente boa – resume.
Naquele tempo o ensino público era o melhor que existia. Os professores da Universidade Federal eram os mesmos do Central. O mundo era outro. Nesse período, Ruy se aproximou ainda mais das letras, fez amigos, refletiu sobre a injustiça da sociedade de seu tempo, escreveu.
Em 63, fez um teste para a Escola de Teatro. Passou. Fez um curso de teoria do teatro, para a formação de críticos. Estudava no Central e nas oficinas de crítica ao mesmo tempo. Com o golpe em 64, as coisas complicaram.
- Veio o golpe e eu tive que dá no pé.
- Mas qual era a sua ligação com a política? – pergunto.
- Não era ligado a nenhum partido, mas bastava você ser crítico para ficar conhecido como comunista. Eu criticava a situação social. Muitos amigos meus foram presos.
Ruy se escondeu, por uns dois meses, numa fazenda da zona rural de Itapetinga.
Quando voltou, o pai estava preso, era suplente de deputado e tinha tomado posse por um tempo. Ao ser preso já não era deputado, mas não era bem visto pelos militares. Algum tempo depois foi solto.
- Mas ser deputado era razão para ser preso? – incito, tentando mostrar surpresa.
- Se você era questionador, era suspeito!
Em 66, prestou vestibular para Direito na Federal da Bahia. Passou. Ficou em direito até 69, mesmo ano em que começou a escrever uma crônica diária para o jornal Tribuna da Bahia. Ganhava o suficiente para viver apenas escrevendo. A partir de 74, foi chamado para ser também copy desk, trabalhava das 6 às 11h da noite.
- Escrevi 12 anos nesse jornal. Oito anos diariamente e quatro anos três vezes por semana.
Com o trabalho na Tribuna da Bahia, viu sua vida se realizar nas letras. Em 1970, abandonou o curso de Direito e a então respeitada carreira de jurista e ingressou de vez no mundo mal visto do Jornalismo, que nem se quer era reconhecido como profissão.
- Mas por que trocar direito por Jornalismo? – pergunto, levando em conta que ele poderia ser formado em direito, mas trabalhar em jornais.
- O meu pai era um brilhante advogado e eu percebi que se continuasse no direito ia trabalhar com ele no escritório e que, principalmente, não ia ter hora para trabalhar com literatura – fala com a firmeza de quem fez a escolha certa. Mais à frente, ele comemora:
- Eu fiz um curso boêmio.
Ruy pegou o diploma na Faculdade de Comunicação da Ufba em dezembro de 1973. No mesmo ano, fez seleção para o mestrado em Ciências Sociais. Começou no ano seguinte e terminou em 77. O título da sua dissertação de mestrado foi “O nordeste e o negro na poesia de Jorge de Lima”.
- Foi você que editou – diz para Flori, que pensa um pouco e confirma com a cabeça.
Ainda em 76, enquanto fazia o mestrado em Ciências Sociais, começou a ensinar na Faculdade de Comunicação.
- Ensinei lá durante 20 anos – relembra.
Sem necessariamente fazer juízo de valor do jornalismo que é praticado hoje, ele demonstra saudade de uma maneira de exercer a profissão que não existe mais.
- O jornalismo naquela época era muito mais vocacional do que ortodoxo – como exemplo ele cita o nome de Rubem Braga, que era formado em direito, mas exercia o jornalismo com muita propriedade.
- Todo jornalista dessa geração era formado em outras áreas. A redação era o encontro de intelectuais de vários ramos. Tinha poetas, advogados, romancistas professores e até jornalistas – brinca ao flexionar os músculos do rosto. E continua:
- Costumo dizer que o grande problema das redações de jornal atualmente é que tem apenas jornalistas – Ruy diz isso fazendo graça, mas com a experiência de quem passou pela Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, foi correspondente do Pasquim e, atualmente, é articulista quinzenal de A Tarde.
A carreira do romancista e poeta não esteve desvinculada da sua vida como jornalista e professor. Ainda em 1981, com o livro As sombras luminosas, ganhou o prêmio nacional de poesia Cruz e Sousa, do estado de Santa Catarina, concorrendo com cerca de 2.300 poetas de todo o Brasil. Faturou meio milhão de cruzeiros como prêmio:
- A grana foi muito boa, mas a inflação destruiu tudo – lamenta. Porém o prêmio o projetou como grande talento para todo o país. Desde então, já foram publicados 11 livros de poemas, sete de prosa e três de ensaio literário.
- Neste mundo tão frenético, com tanto miséria, a literatura não está perdendo espaço? – questiono.
Ruy, por sua vez, reconhece que literatura hoje tem mais concorrência, mas acredita na fidelidade do leitor:
- O leitor de livro é um leitor especial. Ele será sempre leitor de literatura. Pode ter o que for, ele não se contamina.
Mais tarde pude entender o porquê de tanta motivação. Ruy esteve na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, há duas semanas. Empolgado, ele tentar traçar a dimensão da coisa:
- São 200 mil metros quadrados de exposição, 7.500 editores. O mundo todo vai pra lá.
Em seguida ele arremata:
- Nunca se editou tanto. O livro nunca esteve tão vivo – Após uma pausa, ele continua:
- Sem livro não há salvação – pára de novo e corrige:
- Sem leitura não há salvação.
Leonan interrompe com uma pergunta sobre os costumes dos alemães:
- Você tomou a cerveja de metro?
Ruy conclui rapidamente:
- A única que tomei foi uma de tamanho normal.
A literatura volta a ter atenção. Agora, responde à pergunta anterior com outra pergunta:
- Quando foi que o mundo não esteve assim? O ser humano é assim, com felicidade, com angústia. O século XX foi muito problemático. Tivemos duas grandes guerras, além de vários outros conflitos, e a produção artística deste período foi fabulosa.
Outra pergunta, abertamente ácida, questiona Ruy quanto ao desempenho de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Ele começa a responder fazendo uma retrospectiva história.
- Na era Vargas, Gustavo Capanema organizou uma espécie de Ministério da Cultura, na verdade acho que era um departamento. Ele tinha como chefe de gabinete Drummond. Hoje o negócio mudou, não se tem mais assessores de peso. Gil não devia ter se metido nisso. Política não é para artista.
Ele continua a resposta com o exemplo de Mário de Andrade:
- Mário de Andrade aceitou criar o departamento de cultura de São Paulo e se aborreceu tanto que acabou por arruinar a saúde. Morreu com 52 anos. É difícil para o artista conviver com burocratas e políticos. Ele vai ter que vender a alma ao diabo.
- Mas você não fez política quando era mais jovem? – pergunto, temendo já saber a resposta.
- Era mais política estudantil. É impossível fazer política nesse país com a sacanagem que está aí. Ninguém tem idealismo, não existe propósito. Não me interessa – resume.
A pausa, que seguiu a resposta convicta, foi interrompida por um vendedor ambulante, que se esforçava para mostrar amizade:
- Professor, meias? Cintos?
- Eu tenho tanta meia que tô pensando em montar uma loja – brinca para não precisar ser mais ácido na negação.
- Eu tenho cuecas também – retorna o vendedor, que não trazia as cuecas à vista.
- Cueca, só vendo – explica, forçando o vendedor a tirar um pacote com três cuecas de dentro de uma sacola. Ruy analisa o produto, tece uns dois comentários e despede o vendedor sem comprar nada.
Após a distração das cuecas, Ruy pediu um café para uma garçonete que observava de longe:
- Um café mortal, por favor.
Em seguida, ele me explica, entre risos:
- Elegi esse café o pior do mundo.
- Você hoje é uma pessoa realizada? Está satisfeito? – pergunto, mudando o rumo da conversa. Convém que saibamos que Ruy acumulou alguns prêmios literários, é membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia de Letras de Jequié e foi premiado pela Academia Brasileira Letras como o melhor poeta de 2005, além de também receber, no mesmo ano, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileiro da Livro.
- Ninguém está satisfeito – responde.
Por esses dias, Ruy está com a atenção voltada para a divulgação do seu livro Um rio corre na lua, lançado no dia 22 do mês passado.
- Cada livro editado é como se fosse o primeiro – revela.
Respira e continua:
- Eu sempre quis fazer literatura e fiz sem sair da Bahia. Sou editado no Rio, em São Paulo, em Santa Catarina e tenho traduções em países da Europa. Hoje acho que sou reconhecido no meio literário. Pelo menos entre meia dúzia de leitores.
- Cadê o fulminante? – cobra à garçonete que olhava distraída para a mesa.
Hoje em dia, Ruy gasta o tempo com aulas de Crítica e Cânone, no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, com leituras variadas, com a prosa e com o confidente de suas emoções: o verso.
*fonte:http://www.ube.org.br/lermais_materias.php?cd_materias=2193
Arquivado em: Geral






A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?